É possível ter uma dor “severa”, nota “6” na escala numérica de dor?

É possível ter uma dor "severa", nota “6” na escala numérica de dor?

Se você fizer essas perguntas para um paciente com dor oferece as mesmas respostas?

1- “Qual é a intensidade média da sua dor nos últimos 7 dias?” (“0” seria nenhuma dor e “10” seria a pior dor imaginada).

2- “Quanto você sente de dor nos últimos 7 dias? (nada, pouca, moderada, severa, muito severa)”

Alguém pode pensar “essas escalas estão correlacionadas, “0” seria nada, “1-3” seria pouca, “4 a 6” seria moderada, “7-9” seria severa, e “10” seria muito severa”.

Um estudo, liderado por um dos maiores pesquisadores em dor crônica do mundo – Mak Jensen, recente mostrou que os pacientes respondem a essas perguntas usando diferentes referências e portanto não oferecem a mesma informação. As respostas para essas perguntas oferecem apenas um correlação moderada (r=0,64). Ou seja, a resposta da primeira segunda pergunta pode ser explicada em 41% pela primeira pergunta. Se uma pessoa responder “severa”, eu posso entender que parte (41%) do que o paciente entende sobre “dor severa” está relacionado com a intensidade da dor. E o restante? O que influencia a resposta do paciente?

Os pesquisadores tiveram uma hipótese: “parte da resposta para a segunda pergunta poderia estar relacionada a fatores como: interferência da dor na vida da pessoa (incapacidade), e aspectos cognitivos (pensamentos catastróficos, crenças sobre estar incapacitado, crença de que medicação é o mais apropriado para a dor crônica). Então fizeram continuaram a pesquisar o quanto esses fatores estão associados com a resposta da segunda pergunta. Perceberam que esses fatores conseguem explicar 63% da resposta à segunda pergunta! Ou seja, quanto mais esses fatores desvantajosos estiverem envolvidos em um paciente, maior será a tendência da dor ser considerada “severa” pelo paciente.

Porque isso é interessante?

1- Um dos critérios para receitar medicamentos opioides é a severidade da dor. Pacientes que relatam dor muito intensa tendem a receberem medicamentos opioides que apresentam efeitos colaterais importantes. Entendendo que para alguns pacientes a dor severa está relacionada com aspectos psicossociais, o medicamento está sendo mal recomendado. Esses pacientes estão recebendo intervenção inadequada. A melhor opção nesses casos seria atuar nos de incapacidade, crenças desvantajosas relacionadas com a dor para reduzir a severidade da dor.

2- Um paciente pode dizer que a intensidade da sua dor também nota “6” e que tem interfere bastante a sua vida, é incontrolável, apresenta pensamentos catastróficos. Esse paciente terá mais chance de dizer que sua dor também severa, mesmo com nota 6. Depois de algum tempo de tratamento, a dor do paciente continua 6 e o profissional pensa que não teve nenhuma melhora. No entanto ao avaliar com outra escala percebe que a dor não também mais severa, e sim moderada. O tratamento foi realmente ineficiente?

3- Perguntas podem ser combinadas em uma avaliação para entender o que está acontecendo com um paciente. Através de perguntas podemos tomar decisões clinicas e determinar alvos terapêuticos. Se um paciente dizer nota 6, mas dor severa, posso pensar em atuar em alvos mais centrais (pensamentos catastróficos, incapacidade, crenças…).

 

Referências:

What Determines Whether a Pain is Rated as Mild, Moderate, or Severe? The Importance of Pain Beliefs and Pain Interference. Clin J Pain. 2017 May;33(5):414-421. doi: 10.1097/AJP.0000000000000429.

 

 

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