Retorno ao trabalho: crença de auto-eficácia parece que é mais importante do que o tipo de dor que se tem!

Retorno ao trabalho: crença de auto-eficácia parece que é mais importante do que o tipo de dor que se tem!

Era feriado, tempo de calor… Nada melhor do que ir com a família para um hotel fazenda! Chegamos na noite de sexta feira. Ficamos em um chalé pequeno, mas bem agradável. À noite, era possível ouvir o som de corujas e grilos.

Fui o primeiro a acordar, era mais ou menos 7 horas da manhã, com passos suaves para não acordar ninguém fui até a janela, abri uma frestinha e logo senti o calor agradável do sol. Olhando para fora, estava tudo silencioso ainda, apenas ouvia o som dos pássaros e das folhas se movimentando com o sopro do vento. Mas lá na frente, do meio das montanhas eu via subindo uma fumaça. Fiquei curioso para saber da onde vinha e o que era aquilo, mas logo o pessoal começou a acordar e os afazeres surgiram.

No dia seguinte acordei mais cedo, as 6 horas, e ao abrir a janela, ainda meio escuro lá estava a fumaça subindo novamente. No terceira dia no hotel acordei ainda mais cedo, as 5 horas, e apesar de tudo ainda estar escuro, podia avistar aquela fumaça subindo.

Resolvi pegar o carro e ir até lá. Seguindo uma trilha por dentro das montanhas eu cheguei bem na fonte da fumaça. Lá tinha uma cobertura de madeira e um senhor de chapéu, de frente para uma máquina, serrando lenhas e colocando empilhadas ao lado. Tinha uma pilha enorme! Ele já tinha feito um bom trabalho e não parou mesmo com a minha chegada. De repente chegou um outro rapaz dizendo “bom dia”! E me convidou para conhecer a lavanderia do hotel! É… aquele lugar era a lavanderia do hotel! Funcionava dia e noite lavando e secando as roupas de cama e toalhas de dezenas de quartos. Não podia parar nunca! Lá tinha 3 enormes caldeiras alimentadas por lenhas. Lenhas eram colocadas com frequência para produzir fogo. A fumaça quente subia… e por tubos em várias direções iam para as muitas máquina daquele lugar. Enquanto máquina lavavam as roupas, outras secavam, pessoas cuidadosamente passavam, dobravam e as deixavam prontas para serem levadas para os quartos ainda bem quentinhas.

Depois desse tour guiado, eu perguntei “e aquele senhor?” O rapaz disse “aquele é o seu José! Ele trabalha aqui há 50 anos!” Eu me aproximei dele e o cumprimentei. Ele parou de cortar lenhas, colocou as mãos na cintura, limpou um pouco seu rosto com o antebraço e disse “bom dia”! Comentei com ele que tinha acordado cedo e que eu podia ver o quanto ele já trabalhou! Perguntei sua idade e fiquei impressionado com a resposta – 82 anos! Eu perguntei se ele sentia dor em algum lugar do corpo. Ele disse que tinha sim, na parte de baixo das costas. E eu perguntei novamente “como ele consegue trabalhar há tanto tempo e ainda sentindo dor?” Ele parou, colocou a mão na cabeça e disse “sei não!”

Eu fui embora…

Pesquisa

Para entender o que faz o seu José continuar sendo capaz de fazer o que precisa ser feito por tanto tempo, pesquisadores fizeram uma pesquisa avaliando… Uma pesquisa analisou mais de 180.000 trabalhadores que tiveram que se ausentar do trabalho por pelo menos um dia por causa de dor lombar. Eles notaram que 68% desses trabalhadores retornaram para o trabalho em um mês com alguma ou nenhuma dor. Ao acompanhar essas pessoas por um ano, 93% trabalhadores retornam ao trabalho. Ou seja, 32%das pessoas não retornam ao trabalho dentro de um mês e 7% não conseguem voltar em um ano. Fazendo uma conta, 57.000 e 12.600 pessoas que perderam pelo menos um dia de trabalho por causa de dor lombar não retornam ao trabalho no final de um mês e um ano respectivamente nessa amostra!

Agora, será que conseguimos entender quais são as características do trabalhador e do trabalho que aumentam suas chances de retornar ao trabalho?

Alguns pesquisadores identificaram que mais importante do que o diagnóstico, é a percepção do próprio trabalhador sobre o quanto ele se sente capaz de controlar sua dor e o quanto acredita ser capaz de fazer suas atividades antes mesmo da dor sumir por completo. O termo técnico para isso é “crenças de auto-eficácia” frente a dor.

Podemos pressupor que se ajudarmos a aumentar a “crenças de auto-eficácia” do paciente, poderemos reduzir a chance dele ficar afastado por muito tempo. No entanto, parece que as intervenções destinadas a esse objetivo logo após que o trabalhador se afasta, não tem dado certo.

Auto-eficácia

Você pode imaginar a auto-eficácia como sendo uma mesa, apoiada em 4 pés. A gente só vai se sentir capaz de colocar uma agua na mesa se os pés estiverem mais ou menos na mesma altura e íntegros. Albert Bandura foi o primeiro a teorizar os quatro elementos da auto-eficácia.

O primeiro pé da mesa é a experiência direta que temos e que nos da a impressão que conseguimos lidar com as dificuldades que aparecem.

O segundo é a observação de pessoas, de preferencia que achamos que parecem conosco de alguma forma, e tiveram sucesso em alguma coisa que queremos.

O terceiro pé são as sugestões verbais e imaginativas que recebemos ao longo ou em algum momento da vida. Podemos receber sugestões da gente mesmo com a auto-conversa e também de nossos pais, amigos, companheiros de trabalho, internet, profissionais da saúde… Essa influencia pode ser também pela capacidade do individuo imaginar situações do que está acontecendo, do que aconteceu ou do que pode acontecer.

O ultimo pé são as respostas emocionais e fisiológicas e como lidamos com elas. O coração pode bater, a respiração pode ficar mais ofegante, estresse, podemos ficar mais tristes ou deprimidos em um momento. Como interpretamos e como lidamos com essas mudanças também interferem no nosso senso de auto-eficácia.

Na minha opinião se uma pessoa tem baixa auto-eficácia, não adianta aumentar um desses pés de forma aleatória porque senão a mesa fica torna e não vai conseguir apoiar uma água. Podemos ajudar uma pessoa a construir e fortalecer cada um desses pés, talvez mais um do que outros dependendo da pessoa. Você pode lembrar um paciente com dor lombar dizendo para você que ouviu do profissional da suade “ eu não posso fazer nenhum exercício por causa da dor, não posso abaixar dessa forma…”. Quando vai fazer um movimento de inclinar para pegar um objeto, começa a hesitar e quando você investiga, antes mesmo de fazer o movimento ele imaginou o pior acontecendo, repetiu para ele mesmo “vai doer”, e ainda sentiu uma pressão normal nas costas, mas interpretou como algo ameaçador. Todos esses pés da mesa da auto-eficácia estão comprometidos.

Agora uma pessoa que deixou de trabalhar e teve a experiência de fato de insatisfação com o trabalho, ao ter uma dor, vai sempre associar o retorno como ameaça. Por isso, na minha opinião, o melhor que uma empresa pode fazer é se certificar que o trabalhador está minimamente satisfeito e investir na manutenção dos seus quatro pés da mesa. Como? Eu não sei, mas tenho algumas ideias assim como você.

Continuando a historia:

No dia seguinte eu resolvi levar minha filha para conhecer a lavanderia do hotel e aproveitei para apresentar a ela o senhor José. Depois de cortar uma ou duas lenhas, o senhor José disse que andou pensando na pergunta que eu tinha feito e continuou… “Sabe, eu acho que tenho uma caldeira dentro de mim também! E durante minha vida cortei umas lenhas boas que fazem um bom calor, e também cortei uma lenhas ruins que só ocupam espaço na minha caldeira. Acho que eu consegui deixar para lá as lenhas ruins, e investir meu tempo em colocar as lenhas boas na caldeira. Acho que por isso ela ainda está aquecendo e mantendo tudo isso funcionar na medida do possível”.

Referências:

1- Absence from work and return to work in people with back pain: a systematic review and meta-analysis. Occup Environ Med. 2014 Jun;71(6):448-56. doi: 10.1136/oemed-2013-101571. Epub 2013 Nov 1.

2- Return-to-Work Self-Efficacy: Development and Validation of a Scale in Claimants with Musculoskeletal Disorders J Occup Rehabil (2011) 21:244–258 DOI 10.1007/s10926-010-9262-4

3- Validação da Chronic Pain Self-Efficacy Scale para a língua portuguesa Rev. psiquiatr. clín. vol.32 no.4 São Paulo July/Aug. 2005

 

Exemplos do questionario de Auto-eficacia:

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