Faria sentido para você, eu dizer que devemos treinar nossa capacidade empática para atender um paciente com dor?

Faria sentido para você, eu dizer que devemos treinar nossa capacidade empática para atender um paciente com dor?

Um dia minha filha de 7 anos me perguntou qual era o problema da paciente que ela havia cruzado no corredor da clínica. Eu disse que ele tinha dor lombar há 3 anos. Então a curiosa perguntou mais uma vez o que eu fazia com aquela paciente. Como também sou curioso, antes de eu responder, perguntei a minha filha o que ELA faria. Ela disse “não sei”! Então eu pedi para ela fechar os olhos e sem esforço responder a essa pergunta, deixando a resposta vir naturalmente como se alguem lhe desse a resposta de presente: “o que você faria com essa paciente que tem dor lombar há 3 anos…”; “o que você faria com essa paciente que tem dor lombar há 3 anos…”

Após uns 2 minutos, ela estava completamente imóvel, pude ver seus olhos franzindo e depois de mais 1 minuto, ela abriu os olhos e disse: “Papai, acho que você deveria dizer para ela respirar mais fundo, e sentir o corpo relaxar”. Eu fiquei admirado com a resposta e perguntei: “como você chegou a essa resposta”. Ela hesitou para responder, olhou para o lado esquerdo no vazio e disse: “eu comecei sentir um pouco a dor que ela sente e então continuei sentindo isso… aos poucos eu fui deixando de sentir e fui acompanhando o que acontecia comigo a medida que eu não sentia mais isso”.

Essa é uma habilidade incrível que todos nós temos! Algumas pessoas desenvolvem mais, outras menos ao longo da vida. Alguns profissionais da saúde costumam valorizar a prática baseada em evidência, e isso é ótimo! No entanto, na minha percepção o uso exagerado do intelecto pode abafar essa capacidade empática.

A educação dos profissionais da saúde deve levar em consideração o treinamento da capacidade empática combinada às evidências. 

Será que eu estou viajando muito? Estudos de neuroimagem mostram que várias áreas do cérebro são ativadas quando uma pessoa está experimenta uma dor. Algumas dessas áreas do cérebro (como o córtex cingulado anterior), estão relacionadas ao aspecto afetivo/motivacional da dor. Pesquisadores curiosos notaram que essa mesma área afetiva também é ativada quando uma pessoa simplesmente observa alguém sentindo dor! Alguns pesquisadores acreditam que pessoas podem sentir mais dor imediatamente após observarem imagens ou pessoas sentindo dor previamente principalmente se a pessoa observada for alguém que você tem apreço.

Isso acontece até mesmo em ratos!! No laboratório, os ratos ficam dentro de uma gaiola com mais alguns 3 ou 4 amiguinhos. Pesquisadores perceberam que os ratos apresentam mais comportamentos de dor quando recebem um estimulo doloroso imediatamente após terem observado um de seus amiguinhos sentindo dor antes deles. O interessante é que não sentem tanta dor quando observam ratos desconhecidos! Incrível, não é!

Empatia

Parece que quanto mais empatia tivermos com alguém, mais nosso cérebro responderá de forma semelhante a outra pessoa quando essa for exposta a uma experiência dolorosa. 

Agora, mais recentemente cientistas estão curiosos para saber se é possível manipular ou alterar a empatia que uma pessoa sente por outra. E verificar os efeitos disso na percepção da dor logo após observarem essas pessoas sendo expostas a um evento doloroso.

Pesquisa

1- Primeiro os pesquisadores colocaram um aparato na mão dos participantes que aumentava a temperatura ao ponto deles sentirem dor. Os participantes tinham que graduar o desconforto de 0 a 10.

2- Depois de saberem mais ou menos quanto os participantes sentiam de dor e sua respectiva intensidade térmica, os participantes assistiam um filme de um ator (disfarçado de participante). Alguns dos participantes assistiam um filme em que esse ator contava uma historia pessoal triste para as pessoas se sensibilizarem com ele: “… e assim que minha namorada morreu”. Outros participantes assistiam uma história pessoal que teoricamente gerava um certo distanciamento da pessoa: “… foi assim que eu enganei aquele ceguinho, hahaha!”

3- Depois disso, os pesquisadores colocaram um vídeo com o rapaz participando do experimento doloroso que eles haviam passado anteriormente, o qual o rapaz expressava dor.

4- Por fim, era a vez dos participantes passarem novamente pelo experimento doloroso que fizeram no inicio.

Resultado

Participantes que assistiram o rapaz contanto a história triste da namorada que tinha morrido, sentiram mais desconforto ao receber o estimulo em sua própria mão.

Comentário

Não é incrível como minha filha fez isso por si só e conseguiu dar uma boa sugestão para mim ajudar minha paciente!

Eu estou tentado a dizer que a capacidade do terapeuta entrar em contato com as dificuldades do paciente pode dar a ele um recurso a mais que quando combinado a outros fatores como o conhecimento e estratégias de comunicação pode aumentar os efeitos do tratamento em pacientes com dor crônica.

No curso “Comunicação Hipnótica para o Manejo da Dor” treinamos de forma aprofundada a entrar em contato com os sentimentos e emoções do paciente. Isso facilita atingir o alvo com a intervenção.

Referência: 

Empathy hurts: compassion for another increases both sensory and affective components of pain perception. Pain. 2008 May;136(1-2):168-76. Epub 2007 Sep 5.  

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