Colocar “algo” dentro de você, pode por si só provocar mudanças que reduzem dor

Colocar "algo” dentro de você, pode por si só provocar mudanças que reduzem dor

Eu me lembro como se fosse hoje quando minha mãe bateu o carro! Eu tinha 6 anos, estava com minha irmã. Minha mãe ficou muito abalada emocionalmente! Uma moradora se aproximou e disse “espera um pouco, vou lhe trazer um copo de água com açúcar”. Minha mãe tomou e foi se acalmando. Você já ouviu falar no “deixa eu dar um beijinho que passa…” Você já ouviu falar no famoso “efeito placebo”, não é? Ele faz parte da nossa vida mais do que imaginamos! Ele é muito poderoso e sempre está “metido” até mesmo nos medicamentos que tomamos!

Então podemos pensar que o alivio que obtemos com um medicamento é resultado da combinação do efeito placebo e “talvez” do princípio ativo desse medicamento. Mas será que o efeito placebo funciona se disserem abertamente para você que isso é placebo? Você pode dizer “é claro que não, Rodrigo!” Como se nossa cognição fosse muito tão esperta e não influenciável! Eu acredito que que existem coisas mais poderosas que a cognição dentro de você!

Pesquisa

97 pessoas com dor lombar há mais de 3 meses participaram do estudo. Os pesquisadores disseram que eles iriam participar de uma pesquisa em que, através de um sorteio, poderiam tomar “pílulas placebo” ou continuar com o  “tratamento usual”. Ambos os grupos fariam isso por 3 semanas. Aqueles que não vão tomar a pílula, poderão tomar depois se quiserem.

Os pesquisadores disseram para todos os participantes (antes de saber qual grupo iriam cair) que a “pílula placebo” não tinha nenhum componente ativo como feita de farinha. Explicaram o que significa “efeito placebo” dizendo que: 1- pode ser poderoso, 2- o corpo pode automaticamente responder à pílula como no caso de um cachorro que começa a salivar ao ouvir os passos do dono, 3- uma atitude positiva pode ajudar, mas não é necessária, 4- tomar as pílulas por 21 dias é importante. Eles ainda viram um vídeo da BBCnews (video abaixo) por 1 minuto e 25 segundos. Depois disso as pessoas foram sorteadas em um dos grupos. O grupo da pílula tinha que tomar 2 vezes por dia. O outro grupo foi orientado para continuar com os medicamentos ou tratamento habitual.

Resultado

83 participantes completaram o estudo.

O grupo que tomou as pílulas tiveram melhora de 1.3 pontos (numa escala de 0-10 da dor) a mais do que o grupo que continuou fazendo a mesma coisa.

O grupo que tomou as pílulas melhorou mais em relação a incapacidade. Com superioridade de 2,9 pontos no questionário de Roland Morris.

Depois que o grupo controle começou a tomar as pílulas, também obtiveram o mesmo beneficio.

Opinião

  • Não acho que devemos vender na farmácia um potinho escrito “Pílulas placebo”. Não acho que devemos receitar placebo para os pacientes!! Isso seria colocar nossa inteligência em desenvolver algo superior ao placebo embaixo da terra!
  • No entanto, esse estudo mostra que muitos dos efeitos que os pacientes obtém ao tomar um remédio é do “movimento interno” do próprio paciente e não do principio ativo do medicamento. Portanto não supervalorize uma intervenção ou um medicamento mesmo quando ele oferece, por ventura um ótimo efeito. Valorize talvez si mesmo!
  • Ao longo da vida, associamos aquilo que colocamos dentro da gente como sendo algo que pode gerar mudanças e nos ajudar em alguns contextos. E mesmo que não acreditemos nisso, as coisas acontecem. Mais ou menos como minha sobrinha: ao ouvir o som de um saco plástico, já fala “salgadinho” e fica com água na boca. “Colocar algo” dentro de você, pode por si só provocar mudanças que reduzem dor. Acupuntura pode seguir muitas vezes a mesma direção.
  • Suponho que a informação oferecida desencadeia uma expectativa muitas vezes inconsciente e isso influencia nos resultados.
  • Suponho que a simples mudança do que a pessoa está acostumada a fazer, pode gerar alguma expectativa inconsciente e influenciar os resultados.

Referência

Open-label placebo treatment in chronic low back pain: a randomized controlled trial.